IFPA Campus Santarém: Projeto CURUMIM é selecionado em edital nacional de fomento à ciência
Um projeto voltado para o fortalecimento da infraestrutura da pesquisa, desenvolvimento e inovação, no interior do Pará, com foco em tecnologias que visam a produção de alimentos de forma mais sustentável e adaptada às condições da Amazônia. Em poucas palavras, pode-se resumir assim os Centros Unificados de Resiliência e Multissistemas Integrados da Amazônia, ou simplesmente CURUMIM.
O CURUMIM tem o Campus Santarém do Instituto Federal do Pará (IFPA) como principal instituição executora, é coexecutado pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), localizada no mesmo município, e conta ainda com parcerias dos Campi Castanhal e Bragança do IFPA. O projeto foi aprovado recentemente no edital de Chamada Pública Infraestrutura para a Amazônia Legal (PRÓ-AMAZÔNIA 2025), promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), cujo resultado foi divulgado em agosto de 2026.
O CURUMIM
Dentro do edital do MCTI/Finep/FNDCT, o projeto CURUMIM está enquadrado na área do conhecimento “Agricultura Sustentável e Agroecologia”, desenvolvendo tecnologias no âmbito de quatro sistemas produtivos integrados: aquaponia (que une criação de peixes ao cultivo de vegetais); tecnologia de bioflocos (BFT); flocoponia (que integra a aquaponia à tecnologia de bioflocos); e sistemas agroflorestais (SAFs), com o cultivo de espécies nativas relevantes, como cumaru, cupuaçu, cacau, açaí e paricá, associado ao aproveitamento da água enriquecida pelos nutrientes oriundos dos sistemas aquícolas.
Na criação de peixes, as pesquisas vão envolver espécies nativas e de grande importância, como pirarucu, tambaqui, matrinxã e camarão-da-amazônia. Além disso, o projeto possui importantes frentes de inovação tecnológica, proporcionando o aperfeiçoamento de sistemas aquícolas sustentáveis para espécies de relevância comercial na Amazônia; a criação de um probiótico aquapônico amazônico, a partir de bactérias nativas da região; o desenvolvimento de um aplicativo móvel integrado a sensores para monitorar a qualidade da água; bem como a construção de um protótipo de distribuição de ração automatizado, para alimentação dos peixes.
O projeto é desenvolvido no Núcleo Multiusuário de Pesquisa em Aquicultura Amazônica Integrada (Nemaqua), do Campus Santarém do IFPA, composto por dois laboratórios: o Laboratório de Experimentação Animal e Vegetal (Leav), onde ficam os sistemas de produção, e o Laboratório Analítico Aplicado à Aquicultura (Laaqua), onde são feitas análises do material biológico gerado. Ainda no instituto, há o Laboratório de Aquicultura de Espécies Tropicais (Laet), em Castanhal. Já na coexecutora Ufopa, há outros dois laboratórios participantes: Laboratório Múltiplo para Produção de Organismos Aquáticos (Lampoa) e o Laboratório de Sanidade Animal (Larsana).
Ao IFPA caberá conduzir experimentos com pirarucu e matrinxã, estudos de comportamento e bem-estar animal, a integração de sistemas aquícolas com SAFs, análises econômicas e desenvolvimento do aplicativo e do arraçoador (distribuidor de ração) automatizado. À Ufopa, ficam os experimentos com camarão em sistema de bioflocos e os de flocoponia com tambaqui e matrinxã, implantação de uma unidade demonstrativa no interior do Pará e análises de sanidade animal. O desenvolvimento do probiótico amazônico será feito em parceria entre as duas instituições. O IFPA também, por meio do Campus Bragança, entra na parceria com atividades de pesquisa relacionadas à biologia molecular.
Os estudantes do IFPA serão beneficiados pelo incremento do projeto uma vez que o CURUMIM envolve laboratórios interdisciplinares e multiusuários – ou seja, infraestruturas públicas, de acesso organizado, que atendem a diversos cursos e níveis de ensino – do técnico integrado ao ensino médio à pós-graduação, podendo ser úteis a pesquisas de iniciação científica, TCC, dissertações, teses, além de eventos científicos e ações extensionistas. Aos docentes e técnicos da instituição, a capacitação e o aperfeiçoamento estão entre as ações previstas.
“Historicamente, quem vive aqui tem menos acesso a infraestrutura científica, formação avançada e serviços especializados. Instalar equipamentos de ponta em Santarém encurta essa distância: o estudante do interior não precisa migrar para pesquisar, e a amostra coletada não precisa viajar quilômetros para ser analisada”, afirma Uemeson José dos Santos, docente do IFPA Campus Santarém e coordenador do CURUMIM.
“Ter um projeto dessa envergadura reconhecido em uma chamada nacional do MCTI/FINEP/FNDCT representa, antes de tudo, o reconhecimento de que se faz ciência de excelência no interior da Amazônia, não apenas nas capitais e nos grandes centros do Sul e Sudeste”, analisa Uemeson. “Para o IFPA, a relevância se desdobra em algumas dimensões: a primeira é o salto de capacidade institucional; a segunda é a formação das pessoas; a terceira é o cumprimento da missão do Instituto. O IFPA existe para articular ensino, pesquisa e extensão em favor do desenvolvimento regional. O CURUMIM faz exatamente isso”, continua.
“E há uma dimensão mais ampla, que vale dizer: em um momento em que o Brasil sediou a COP-30 e leva ao mundo a agenda da bioeconomia amazônica, um projeto como o CURUMIM é um exemplo concreto de como essa agenda se traduz em prática usando espécies nativas, microrganismos da própria biodiversidade regional e valorizando o conhecimento local, com produção de alimento de baixo impacto e recuperação de áreas degradadas. A Amazônia não aparece aqui como objeto de estudo de terceiros, mas como protagonista da própria transição ecológica”, conclui o coordenador.
Para a comunidade ver, aprender e usar
Dentro das perspectivas do projeto CURUMIM, as comunidades locais também serão abonadas com o crescimento do projeto. Isso porque todo o desenvolvimento científico proposto não deve ficar entre as paredes do instituto nem da universidade. A ideia principal é que haja uma maior interiorização da ciência e da inovação, sem contar a atividades de extensão que pretendem levar e compartilhar com as populações dos territórios todo o conhecimento produzido.
“A interiorização proposta pelo CURUMIM vai além de instalar equipamentos e desenvolver pesquisas em Santarém. O projeto prevê ações para que o conhecimento e as tecnologias geradas alcancem outros municípios e diferentes públicos da região, por meio de capacitações, atividades de extensão, divulgação científica, transferência de tecnologia e aproximação com produtores, comunidades, estudantes e instituições locais”, resume o coordenador do projeto.
No CURUMIM, o envolvimento da comunidade se dá por meio de unidades demonstrativas em escolas e comunidades, que funcionam como modelo replicável em outros municípios; capacitações presenciais, levadas até as pessoas que vivem da cultura de peixes, especialmente ribeirinhas, com demonstrações práticas; material didático de linguagem acessível; doação de mudas nativas para a região do Baixo Amazonas, contribuindo para o reflorestamento; parcerias com organizações do território; e transferência de tecnologia, levando as soluções desenvolvidas até as comunidades.
Parceria de longa data
Em Santarém, IFPA e Ufopa já possuem há algum tempo a parceria de pesquisa e desenvolvimento regional. As instituições de ensino federal buscam constantemente somar esforços por meio de intercâmbio de estudantes, cooperação entre laboratórios e programas de pós-graduação e, desde 2024, vêm desenvolvendo juntas o CURUMIM. Com a aprovação no edital PRÓ-AMAZÔNIA 2025 MCTI/Finep/FNDCT, o projeto cresce e se consolida.
Com os recursos conquistados de pouco mais de R$ 8,5 milhões, para serem aplicados em 36 meses, a coordenação do projeto espera que haja um verdadeiro salto de qualidade. “Hoje é possível criar os animais e conduzir os experimentos, mas boa parte das análises mais refinadas – genéticas, moleculares, hormonais, histológicas – precisa ser direcionada para outros locais, o que encarece, atrasa e às vezes inviabiliza a pesquisa. Com os equipamentos previstos (sistema de PCR convencional, absoluto e em tempo real, ultrafreezer -80 °C, liofilizador, micrótomo, leitora de microplacas, entre outros), essas análises passam a ser feitas em Santarém, do início ao fim”, comemora Uemeson.
Com o recurso, em resumo, o CURUMIM deve atuar em, pelo menos cinco frentes: obras e adequação dos espaços de ambas as instituições; investimento em equipamentos; compra de material de consumo para realização das atividades de pesquisa e de interiorização; bolsas para estudantes; e diárias, passagens e serviços.