IFPA na COP30: painel abre espaço para discussão do protagonismo escolar indígena
Educação escolar indígena com protagonismo indígena. Esse é o principal objetivo do Instituto Federal do Pará (IFPA) com seus projetos de ensino, com ofertas exclusivas a povos tradicionais. E foi justamente isso o apresentado e discutido no painel “Vozes jovens, saberes ancestrais: a educação escolar indígena como campo de resistências”, dentro da programação da 30ª Conferência das Partes sobre mudanças climáticas (COP30), na última terça-feira, 18 de novembro, em Belém.
“Trazer o painel ‘Vozes Jovens, saberes ancestrais’, sobre educação escolar indígena para o espaço da COP é muito importante para a gente, porque reafirma o nosso compromisso enquanto instituição com os povos indígenas da Amazônia e com as suas pautas de luta. Sejam relacionadas a políticas de língua, mas principalmente relacionado à formação de professores indígenas”, comemora Tatiane Costa, coordenadora do projeto de Magistério Indígena do IFPA.
“Está sendo uma experiência muito bacana poder trazer tanto os coordenadores dos projetos quanto o nosso aluno Bepkra para a COP 30, pois é um debate que vai associar não só a presença das florestas, mas a presença das pessoas na Amazônia. Quando a gente vai estudar qualquer tipo de preservação ambiental, a gente sabe que as comunidades indígenas são as mais especialistas nessa relação homem-natureza, ambiente-humanidade. E isso faz com que a gente incentive a permanência da cultura indígena e, também, a permanência dos povos indígenas através da luta pelos seus direitos e da formação de professores”, afirma Arthur Boscariol, pró-reitor de Ensino do IFPA.
Em parceria com a Fundação de Educação Tecnológica e Cultural da Paraíba (Funetec), o IFPA levantou a discussão com ineditismo, sendo o painel a única atividade voltada para a temática da educação escolar indígena.
“A gente gostou muito hoje aqui. Eu nunca tive oportunidade para apresentar como hoje, eu estou muito feliz, que é uma oportunidade nossa, do povo Xikrin, do território Bacajá, que eu estou por aqui para a gente poder se alinhar, explicar o que a gente trouxe da nossa região. A gente está se formando para a gente poder falar o que a gente quiser. Valorizar a nossa etnia, o nosso nome, no nosso território, na nossa fala, em nossos costumes”, avaliou Bepkra Xikrin, cacique do povo Xikrin, da Terra Indígena Trincheira Bacajá.
O IFPA já possui tradição em ofertar projetos de ensino voltados a comunidades indígenas e há pelo menos dez anos faz essa aproximação com diversos povos localizados no estado do Pará, em especial na formação de Magistério em nível Médio e cursos de formação inicial e continuada (FIC) voltados a atividades ao cultivo de produtos do arranjo produtivo local dentro dos territórios.
De acordo com Boscariol, atualmente, a instituição possui um acordo de cooperação técnica (ACT) com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), com vigência até 2029, pelo qual já está realizando algumas ações, com destaque para a Agroecologia e o Magistério.
No momento, são quatro Campi envolvidos com a Educação Indígena: Marabá Rural, Altamira, Conceição do Araguaia e, em fase de negociações, Santarém. O Magistério também é ofertado para o povo Parakanã/Awaete. Já para o povo Kaiapó, o curso de FIC de Cacau tem sido uma solução para a produção agrícola da comunidade. Por fim, está sendo negociado o curso de Aquicultura para o povo Munduruku, na região do Tapajós.
Para Tatiane Costa, executar as políticas de ensino dentro dos territórios é uma forma de dialogar com as lideranças e valorizar a própria comunidade, seus projetos, suas demandas, manter forte os vínculos e evitar evasão escolar, além de “evitar outras violências que ocorrem em outros espaços educativos que não são contextualizados com a dinâmica da comunidade, com a identidade da comunidade”, completa. “Levar para dentro do território não é só uma questão espacial, mas é uma questão de princípio pedagógico e político. Não são só os alunos, é a comunidade interagindo e participando dessa política junto com a gente e formando junto com a gente, participando dos processos formativos”, conclui a professora.
“Para a gente poder formar nossos alunos como professores é importante para a gente poder ensinar os nossos alunos, que são crianças, jovens, adultos, que não têm experiência de falar a própria língua, estudar a própria língua. Porque tem muito ancião mais velho que não é alfabetizado, que não sabe escrever a própria língua e o nosso próprio nome, que não sabe fazer. Por isso que a gente tem muito que formar, na própria comunidade, os alunos que estão no Magistério Xikrin”, finaliza Bepkra Xikrin.