Estudo do Parfor Equidade faz pesquisa inédita sobre saberes quilombolas e educação do campo em Algodoal
O artigo “Agricultura familiar e identidade quilombola: saberes tradicionais e educação do campo na comunidade de Algodoal, no Pará” foi destaque no V Seminário Internacional de Educação do Campo (Sifedoc), Chapecó (SC), no período de 1º a 3 de outubro de 2025. A publicação é resultante de pesquisa desenvolvida na disciplina de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural do curso de Licenciatura em Educação do Campo ofertado pelo Campus Castanhal do Instituto Federal do Pará (IFPA) no Polo em Curuçá pelo Programa Parfor Equidade.
As apresentadoras do artigo, Layanne Ketellen Amaral Souza e Raimunda Nazaré Rodrigues Macedo, explicam que a pesquisa é uma resposta à ausência de conteúdos sobre a cultura de Algodoal nos livros didáticos. “A proposta da professora era analisar os materiais distribuídos nas escolas do município”, detalham.
O trabalho identificou a importância de incluir os saberes quilombolas no currículo da Educação do Campo. E foi conduzido por Igor Chagas, Layanne Amaral e Raimunda Macedo. Igor é morador de Algodoal e atua como diretor sociocultural da associação local. Layanne e Raimunda já realizaram imersões na comunidade. Para a realização do trabalho, eles contaram com colaboração de Wagner José do Nascimento Mendes, Waldene Ferreira Pinto e orientação de Dra. Regiara Croelhas Modesto.
O estudo buscou compreender como os sistemas agrícolas tradicionais contribuem para a memória social e o pertencimento. Para tanto, os pesquisadores tinham dois objetivos específicos: identificar os sistemas agrícolas e entender seus significados simbólicos. A pesquisa também investigou como essas práticas se articulam com a educação e a sustentabilidade.
Os pesquisadores adotaram metodologia qualitativa. Realizaram entrevistas semiestruturadas, observação participante e registros fotográficos. Na análise seguiram referenciais da educação do campo e dos estudos culturais. E adotaram a escuta da comunidade como instrumento central para o processo de levantamento das informações.
Nas respostas aos questionários, a agricultura familiar foi apontada como elemento central da identidade quilombola. Ela representa mais que sustento. É modo de viver, reconhecer-se e transmitir saberes. As práticas tradicionais preservam a memória dos antepassados e reforçam os laços comunitários. Cada roça, colheita e técnica de plantio carrega significados culturais, espirituais e afetivos. São espaços de resistência e reafirmação da identidade.
Na comunidade de Algodoal, foram mapeadas práticas como o cultivo de alimentos, o preparo da farinha, a pesca artesanal e o extrativismo do caranguejo. Os moradores também utilizam a lua como referência para o plantio. Os saberes são transmitidos entre gerações.
A pesquisa concluiu que a agricultura familiar representa mais que produção e reforça a importância de incluir os saberes tradicionais no currículo escolar. Ela é apontada como elemento central da identidade quilombola. É modo de viver, reconhecer-se e transmitir saberes. As práticas tradicionais preservam a memória dos antepassados e reforçam os laços comunitários. Cada roça, colheita e técnica de plantio carrega significados culturais, espirituais e afetivos. Ela preserva a memória, a ancestralidade e o pertencimento.
A educação do campo, nesse contexto, reconhece que o conhecimento nasce da experiência, do trabalho na terra e da vivência comunitária. Ela permite que práticas, histórias e memórias das famílias quilombolas sejam trazidas para a escola. Quando o ensino dialoga com o cotidiano do campo, ele passa a fazer sentido para os estudantes. Torna-se instrumento de resistência e afirmação da identidade.
A organização social da comunidade foi outro achado do estudo. A associação local foi mantida pelos sócios na luta pelo reconhecimento. Segundo Igor Chagas, diferentes gerações participam das reuniões, inclusive crianças que ainda não são sócias. Todos estão juntos pela luta e resistência.
As estudantes Layanne Ketellen Amaral Souza e Raimunda Nazaré Rodrigues Macedo, que apresentaram o artigo no Seminário, explicam que pesquisa adotou abordagem qualitativa. O grupo realizou entrevistas semiestruturadas, observação participante e registros fotográficos. A análise seguiu referenciais da Educação do Campo e dos estudos culturais. Afirmam que a escuta da comunidade foi central para o processo.
Na comunidade, foram mapeadas práticas como o cultivo de alimentos, o preparo da farinha, a pesca artesanal e o extrativismo do caranguejo. Os moradores também utilizam a lua como referência para o plantio. Os saberes são transmitidos entre gerações.
Os resultados reforçam a necessidade de políticas que reconheçam o campo como espaço de produção de saberes, cultura e identidade. Em Curuçá, por exemplo, onde há reserva extrativista marinha e comunidade quilombola, é necessário estudar o território. A escola precisa dialogar com a realidade local, inserindo no currículo conteúdos que contemplem vivências, histórias e tradições.
Opinião sobre o estudo
Na opinião das estudantes, esse estudo e sua apresentação em um evento internacional fortalece a luta por equidade na educação superior. “Participar do SIFEDOC foi uma experiência transformadora. O evento permitiu compartilhar saberes que nascem da terra, da coletividade e da ancestralidade. Mostrou que a universidade deve ser espaço plural, onde diferentes vozes sejam reconhecidas”, garante Layanne e Raimunda.
Sobre o seminário, Layanne e Raimunda destacam que lá foi possível perceber que os problemas enfrentados pela Educação do Campo são semelhantes em diferentes regiões do país. “Mudam os territórios, mas as dificuldades persistem. Por outro lado, foi possível criar uma rede de relações e reafirmar que esses espaços são também de luta e resistência”.
Pretendem, a gora elaborar um caderno pedagógico com experiências do município de Curuçá. “O material deve retratar a realidade local e ser utilizado nas escolas do campo. A intenção é valorizar saberes locais, histórias das famílias agricultoras e a riqueza cultural das comunidades”, complementam.
A proposta do caderno pedagógico é ter um instrumento de valorização, resistência e identidade. “Deve permitir que crianças se reconheçam nas páginas, vejam suas famílias representadas e sintam orgulho de suas origens. Também pode contribuir para que professores e alunos trabalhem a agricultura familiar de forma contextualizada”, explicam.
Há, ainda, planos de ampliar o estudo para o Trabalho de Conclusão de Curso. A intenção é aprofundar a compreensão sobre educação do campo e identidade quilombola. A participação no evento teve impacto na trajetória acadêmica dos autores. Fortaleceu o conhecimento, deu visibilidade ao trabalho e ampliou perspectivas sobre pesquisa e ensino.
Parfor Equidade - IFPA
A turma do curso Licenciatura em Educação do Campo – PARFOR Equidade, Polo Curuçá, teve início em novembro de 2024. Conta com 30 estudantes, dos quais 20 professores são da rede pública e 10 oriundos da demanda social. As aulas ocorrem nos meses de janeiro, fevereiro e julho, com base na Pedagogia da Alternância. A turma é formada por sujeitos das águas, que produzem conhecimento a partir de suas histórias.
Além do Polo de Curuçá, atendido pelo Campus Castanhal, o IFPA oferta o curso de Licenciatura em Educação do Campo pelo Programa Parfor Equidade em Curralinho (Campus Breves), Santa Luzia do Pará (Campus Bragança) e Mojuí dos Campos (Campus Santarém).
A mensagem deixada pelos autores é clara: a realidade do norte, das marés de Curuçá e das roças quilombolas de Algodoal tem valor. “É preciso reconhecer a riqueza dos saberes tradicionais e da história cultural que elas preservam. A educação do campo deve ser construída com protagonismo, investigação e valorização das comunidades”.