Professor do IFPA campus Óbidos integra delegação brasileira em intercâmbio histórico no Peru
O professor do Instituto Federal do Pará (IFPA) – Campus Óbidos participou do programa internacional Caminhos Amefricanos, realizado no Peru entre os dias 24 de agosto e 7 de setembro. A iniciativa, promovida pela CAPES em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, proporcionou uma experiência internacional voltada à valorização das culturas afro-latino-americanas e à promoção de uma educação antirracista.
A seleção iniciou em dezembro de 2024, por meio do edital conjunto nº 4/2024. Foi um edital voltado exclusivamente para professores da educação básica. O processo exigiu além da documentação comprobatória do currículo, plano de aula e entrevista dos candidatos. A atuação em projetos de extensão e movimentos sociais ligados à pauta racial, como o NEABI e o NAC, que valorizam as identidades quilombolas amazônicas, foram os diferenciais do professor Azenclever dos Santos para o habilitar à vaga.
Ao todo, foram selecionados 50 professores em todo o Brasil, entre eles o professor Azenclever Bruno dos Santos. Os educadores viajaram juntos para Lima, acompanhados por uma equipe de coordenação e documentaristas — cerca de 60 pessoas compuseram a delegação. A pluralidade da comitiva foi um dos diferenciais positivos da experiência, com representantes de todas as regiões do país.
Para o professor Azenclever dos Santos, o programa Caminhos Amefricanos representa uma proposta ousada e transformadora. “É um projeto de reconstrução histórica e pedagógica — e eu queria muito fazer parte disso”, afirmou. Ele destacou a importância da implementação das Leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatória a abordagem das culturas africana, afro-brasileira e indígena nas escolas.
Participar do intercâmbio foi, para ele, uma reafirmação de seu compromisso com a transformação social por meio da educação. “Estar ao lado de irmãos e irmãs da diáspora, trocando saberes, nos ajuda a derrubar fronteiras coloniais e fortalecer a luta por uma educação antirracista de verdade”, ressalta professor Azenclever dos Santos.
Ver seu nome entre os cinquenta brasileiros que participariam do Caminhos Amefricanos foi uma das melhores sensações que já experimentou na vida. “Me emocionei, sorri, chorei e agradeci. Foi como ver minha trajetória ser premiada”, recorda-se professor Azenclever dos Santo. Nascido na Favela do Aço, no Rio de Janeiro, e atualmente radicado na capital fluminense por conta do mestrado no CEFET/RJ, ele celebrou a oportunidade de representar o IFPA e o Brasil em um projeto internacional de tamanha relevância.
Durante os 15 dias de intercâmbio, os participantes vivenciaram uma intensa programação em Lima, com seminários, rodas de conversa, visitas a escolas públicas e instituições culturais. A cerimônia de abertura contou com autoridades brasileiras e peruanas, incluindo representantes da Universidad Nacional Mayor de San Marcos e do Museu Nacional Afroperuano – a mais antiga das Américas, fundada em 1551. Nesse espaço, foram debatidos temas como relações étnico-raciais, descolonização curricular, combate ao racismo e os desafios comuns à educação latino-americana.
O grupo também visitou escolas públicas em Lima e cidades vizinhas, conhecendo projetos de educação infantil e de jovens e adultos. As experiências permitiram reflexões sobre práticas pedagógicas e reafirmaram a urgência de uma educação que respeite as diferenças e enfrente desigualdades históricas.
Além da capital do Peru, o grupo explorou sítios arqueológicos, museus e cidades históricas como Pachacamac, Callao e San Luis de Cañete. No fim de semana, metade da delegação seguiu para Cusco e Machu Picchu, em uma jornada de reconexão ancestral que os aproximou dos vestígios das civilizações originárias e evidenciou a ruptura social causada pela colonização e pela escravização de africanos. A história da diáspora negra, muitas vezes silenciada, foi vista com os próprios olhos — uma experiência impactante e transformadora. “Cada pedra, cada muralha inca contava segredos de um passado sagrado”, relatou o professor.
O programa Caminhos Amefricanos não apenas promoveu trocas pedagógicas, mas também fortaleceu vínculos entre educadores comprometidos com a justiça social. Para o professor do IFPA, a experiência foi um presente para a alma e uma injeção de propósito. “Reconstruir narrativas a partir dos nossos próprios passos é o que dá sentido à nossa missão como educadores”, acrescentou o professor.
As atividades foram conduzidas por intelectuais como o professor Ricardo Aguilar, o escritor José “Cheche” Campos e a congressista Marta Moyano. E incluíram encontros com ativistas, professores da rede pública e lideranças comunitárias. A troca cultural teve espaço para danças típicas, pratos tradicionais e expressões artísticas que reafirmaram o orgulho das raízes afroperuanas.
Logo no primeiro dia, uma roda de apresentação no Instituto Guimarães Rosa, permitiu aos educadores compartilhar suas origens e suas lutas contra o racismo. Nas escolas, o encontro com estudantes peruanos — crianças e adultos — revelou que, apesar das distâncias, a luta por uma educação de qualidade e baseada em direitos humanos é comum a todos.
Professor Azenclever dos Santos afirma que durante o intercâmbio, universidades peruanas como a Universidad Nacional Mayor de San Marcos e a Universidad Nacional de Educación Enrique Guzmán y Valle manifestaram interesse em estabelecer parcerias com instituições brasileiras, incluindo o IFPA. A proposta inclui intercâmbios, oficinas binacionais e projetos conjuntos voltados para comunidades quilombolas e amazônicas.
Ele volta ao IFPA fortalecido, com novos repertórios teóricos e metodológicos. “Essa vivência amplia minha compreensão sobre uma educação que ultrapassa fronteiras e conecta a Amazônia ao restante da América Latina e ao continente africano por meio da diáspora”, garante professor Azenclever dos Santos. Seu objetivo decorrente da vivência em Lima é organizar projetos interdisciplinares e fortalecer o protagonismo de estudantes quilombolas, ribeirinhos, indígenas e periféricos.
O professor resume a experiência como um marco em sua trajetória: “Volto ainda mais convicto de que nosso papel como educadores é construir pontes entre os saberes, valorizar a memória dos povos afrodescendentes e fortalecer a identidade dos nossos estudantes”.
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