Estudantes do IFPA destacam racismo ambiental em municípios paraenses na Olimpíada Brasileira de Cartografia (OBRAC)
Três equipes do Instituto Federal do Pará (IFPA), dos campi Belém, Marabá Industrial e Tucuruí, estão entre as classificadas para a segunda fase da segunda etapa da Olimpíada Brasileira de Cartografia (OBRAC). A competição 2025, que tem como tema “Por uma educação antirracista”, mobiliza estudantes do ensino médio de todo o país em atividades teóricas e práticas voltadas à análise crítica do território por meio da linguagem cartográfica.
A OBRAC é estruturada em três etapas, sendo as duas primeiras realizadas on-line. A primeira, que ocorreu entre 19 e 23 de maio de 2025, consistiu em uma prova teórica; a segunda, com atividades práticas, teve sua primeira fase em 9 de junho e a segunda em 11 de agosto. As equipes que alcançaram nota igual ou superior a 80 pontos foram aprovadas para a terceira etapa, que será presencial e ocorrerá no Rio de Janeiro, reunindo cinco equipes de cada região do país.
Mapeamento da Vila da Barca: cartografia como denúncia
A equipe do Campus Belém, composta pelas estudantes Paula Bentes Pena, Ana Beatriz da Costa Ribeiro, Maria Luiza Barbosa de Sousa e Emmelie Fernandes Correa, do curso Técnico em Saneamento, sob orientação da professora Tatiana Pará Monteiro de Freitas, escolheu como área de estudo a Vila da Barca, localizada às margens da Baía do Guajará. A comunidade, formada por ribeirinhos e marcada por décadas de ocupação desordenada, é considerada uma das maiores favelas sobre palafitas da América Latina.
Utilizando dados do IBGE, imagens de satélite e ferramentas como QGIS e Google Earth Pro, as estudantes produziram um mapa temático que evidencia o racismo ambiental na região. A Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) da Vila da Barca, por exemplo, opera com sérias deficiências técnicas, como equipamentos inoperantes e ausência de análises físico-químicas, comprometendo a saúde pública local. Além disso, obras relacionadas à COP30 — que será realizada em Belém entre os dias 10 e 21 de novembro de 2025 — têm gerado impactos negativos na comunidade, como a construção de uma estação elevatória de esgoto voltada para atender áreas nobres da cidade, enquanto a própria Vila da Barca permanece sem infraestrutura adequada.
A equipe também produziu um relatório e um vídeo explicativo, detalhando o processo cartográfico e os recortes temáticos, espaciais e temporais utilizados. O trabalho revela como a cartografia pode ser uma ferramenta de denúncia e valorização da justiça territorial.
Marabá Industrial: dados transformados em consciência social
No Campus Marabá Industrial, os estudantes Cleiton Santos Costa, Maria Clara de Souza Lima, Willian Saraiva Silva e Yane Katlen da Silva Lima, do 2º ano do Curso Integrado de Controle Ambiental, desenvolveram uma análise territorial com base em sete variáveis: ocupação topográfica do solo, alfabetização, raça, renda, saneamento, demografia e domicílio. Orientados pela professora Iranilda Silva Moraes, os estudantes constataram que o racismo ambiental é prevalente em Marabá, especialmente nas áreas onde há maior concentração de população preta, parda e indígena.
Essas regiões apresentam infraestrutura precária, estão sujeitas a inundações recorrentes e enfrentam maior incidência de doenças. A equipe trabalhou para tornar os dados do IBGE mais compreensíveis por meio da cartografia crítica, utilizando ferramentas como QGIS e Google Earth. Os encontros semanais organizados pela professora Iranilda incluem atividades teóricas e práticas, como leitura de textos, resolução de simulados e debates sobre diversidade e educação antirracista.
Para Cleiton Santos Costa, os mapas são instrumentos de conscientização e mobilização social. “Os mapas deixam mais evidente o racismo ambiental em nossa cidade”, afirma. Maria Clara de Souza Lima complementa que o racismo ambiental se manifesta quando comunidades historicamente marginalizadas são as mais afetadas pelos impactos negativos das mudanças climáticas e têm menos acesso a políticas públicas. Yane Katlen da Silva Lima destaca a importância da educação antirracista na formação de cidadãos mais conscientes. “Estudar este assunto me fez entender que o racismo está presente de forma estrutural em nossa sociedade. E a escola é essencial para a quebra desse ciclo”, afirma.
A participação da equipe faz parte do Projeto de Ensino “Olimpíada Brasileira de Cartografia – OBRAC 2025: Por uma educação antirracista”, aprovado pelo Edital nº 6/2025. A professora Iranilda ressalta que três dos quatro integrantes recebem assistência estudantil, o que contribui significativamente para sua permanência e progresso. “Um bom resultado nesta nova etapa é crucial para confirmar nossa vaga entre as cinco melhores equipes da região Norte e carimbar o passaporte para a grande final presencial”, conclui.
Tucuruí: cartografia como técnica e instrumento para consciência social
A terceira equipe paraense classificada é do Campus Tucuruí, formada pelos estudantes Alice Keller Rodrigues de Souza, Estefany da Silva, Kemily Geovana Alves de Sousa e Luis Otávio Alves de Oliveira, dos cursos Técnico Integrado em Agrimensura, sob orientação do professor Fernando Alves Barros Firmino. Com base em técnicas de agrimensura e geoprocessamento, os estudantes contribuíram para o mapeamento de áreas vulneráveis, evidenciando como fatores como relevo, infraestrutura urbana e distribuição populacional se relacionam com o acesso desigual a serviços públicos.
A equipe do Campus Tucuruí buscou analisar os dados cartográficos e censitários entre a Vila Permanente, de alto padrão e a Vila dos Pescadores no km 11 do Município de Tucuruí, que sofre com a exclusão social, racial e ambiental. Os mapas e os dados da distribuição da população preta e parda do censo do IBGE (2022) nestas duas localidades revelaram as desigualdades territoriais.
Para facilitar a visualização das desigualdades constatadas entre as duas localidades, os estudantes elaboraram o mapa coloropédico que utiliza uma paleta de cores, de zero a 100, para mostrar a menor ou maior concentração da população nas localidades pesquisadas e, assim, poder verificar e evidenciar as disparidades territoriais. No mapa foi inserido os pontos registrados por GPS, delimitando a Vila Permanente e o KM 11, os registros fotográficos e as informações cartográficas. Essa pesquisa de campo permitiu comparar os dados censitários e a pesquisa de campo, constatando que a população preta e parda, em Tucuruí, se concentra em áreas vulneráveis, sujeita a riscos ambientais, com menor infraestrutura e saneamento urbano. Fato que caracteriza o racismo ambiental.
Assim como as equipes de Belém e Marabá Industrial, os estudantes de Tucuruí demonstram que a cartografia pode ser uma ferramenta de denúncia e transformação. Ao revelar os territórios da exclusão, os mapas produzidos pelos jovens paraenses contribuem para a construção de uma sociedade mais justa, consciente e comprometida com a equidade ambiental e social.