Língua Parakanã ganha destaque com tradução feita por estudante do IFPA
O artigo científico “Índios Parakanã: língua, escola, educação”, escrito pela linguista Ruth Monserrat, foi o primeiro traduzido por um estudante do Instituto Federal do Pará (IFPA) do português para a língua indígena Parakanã.
O feito inédito é resultado da dedicação do estudante Tarana Parakanã, 38 anos, do curso de Licenciatura em Educação do Campo. Ele é bilíngue, nativo do povo Parakanã, morador da Aldeia Parano'a, foi alfabetizado em Língua Parakanã e em Língua Portuguesa. Para o trabalho de tradução, o discente contou com a orientação da professora e pesquisadora Quélvia Souza Tavares. O artigo traduzido por eles foi publicado originalmente no Jornal do Brasil em 15 de julho de 1991.
Com o título “Awaeté-Parakanã: Awaeté Xe’enga, imopinimawaranga”, a tradução foi realizada a convite da Revista Brasileira de Linguística Antropológica da Universidade Federal de Brasília (UNB) à docente Quélvia Souza Tavares, do IFPA campus rural de Marabá. A tradução e publicação são mais do que uma homenagem à linguista Ruth Maria Fonini Monserrat. O artigo é um marco no registro científico e no emprego da Língua Parakanã no Instituto Federal do Pará (IFPA).
Monserrat foi a primeira linguista a atuar junto aos Parakanã em 1990. Desenvolveu um estudo fonético e fonológico da língua que serviu de base para a implementação da escrita e a alfabetização das aldeias Parakanã em sua própria língua.
Integrante do Grupo de Pesquisa Territórios Indígenas e Etnoenvolvimento (GPTIE) do IFPA, Quélvia Tavares explica que a Língua Parakanã pertence ao sub-ramo IV da família Tupí-Guaraní, do Tronco Tupí, conforme a classificação de Rodrigues (1985) e Rodrigues e Cabral (2002). É a base da comunicação dos povos residentes nas Terras Indígenas Apytewera e Parakanã, no sudoeste do Pará.
O artigo é um registro que comprova que os povos Parakanã foram deslocados de seus territórios originais situados onde, hoje, estão os lagos da Usina Tucuruí. E é sobre os desdobramentos no âmbito educacional e linguístico – Programa Integrado de Educação Parakanã –, que se debruça sua autora. É, na verdade, um registro da história da língua escrita do povo Parakanã pela linguista que os conduziram na construção da própria escrita.
A professora Quélvia explica que, no Brasil, se tem a ideia equivocada de que se fala apenas a Língua Portuguesa. Com isso, acaba se ignorando a diversidade linguística originária existente no país, além das línguas estrangeiras, como o inglês, francês e espanhol. “Existem povos e culturas que são invisibilizados em nosso país. E o IFPA, com esta publicação e vários outros trabalhos, está mostrando que é preciso mudar isso. É preciso criar acesso ao ensino médio e superior e dar status para as Línguas Indígenas. Podemos mostrar que nossos discentes podem se apropriar da língua em prol deles”, garante.
“Na graduação, é muito importante ter estudantes indígenas produzindo conhecimento científico em sua própria língua. Taranã é um dos poucos de sua comunidade que compreendem muito bem o português. Ele poder levar o conhecimento científico a eles é fundamental para a comunidade e para o Instituto Federal”, afirma a Professora Quélvia.
Tarana Parakanã compreende que a língua é a base do processo de leitura, interpretação e interação de um povo com o mundo. Os conhecimentos, a cultura, o presente e os sonhos de futuro de um povo são transmitidos para as novas gerações e são acessíveis integralmente em sua língua. A prática linguística oral e escrita ajudam na manutenção e recuperação das concepções e conhecimentos de toda ordem.
Ele nos explica que traduzir os artigos científicos para o Parakanã é fundamental para deixar registrada a história de seu povo e para ter uma língua própria. Conta que, há pouco tempo, a Língua Parakanã era apenas oral. “Este artigo é parte de nossa história. Há 40 anos, não existia registro de nossa história. Não tinha nada escrito em Parakanã como eu fiz. Ele servirá para os mais novos poderem aprender sobre o que aconteceu no passado. Fui o primeiro a escrever um artigo em Parakanã no IFPA”.
Tarana Parakanã é bilíngue, sabe se expressar, ler e escrever em português. Porém, admite que o significado de várias palavras em português é muito difícil para ele compreender. Então, a tradução do artigo foi feita com o auxílio e orientação da sua orientadora Quélvia. Ele traduzia e ela digitava o texto. Depois de digitado, ele, que já atua como professor, fez as correções do Parakanã. “A nossa língua é muito importante. Sei bem minha língua indígena. Mas, é difícil traduzir para o português. Para compreender o significado de algumas palavras em português, eu preciso de ajuda. A professora me ajudou, respondeu-me todas as dúvidas sobre o artigo”, relembra.
Sobre o marco que é a tradução do artigo de Ruth Monserrat e sua publicação em uma revista renomada da área de linguística antropológica, Tarana Parakanã deixa transparecer que compreende bem o valor do feito. “Como primeira tradução, é muito importante para mim. Eu posso traduzir do português para a nossa língua e deixar por escrito um documento para meu povo. Meu povo ainda não sabe traduzir. Por isso me esforcei muito para estudar e escrever um livro para nós”, afirma.
“Depois que eu comecei a estudar e traduzir do português para o Parakanã, eu fiquei muito feliz com a tradução, com a ajuda da professora. Sobre o meu objetivo, meu sonho, meu futuro, eu penso sim em algo maior, algo para ajudar meu povo, para conquistar nossa palavra, para não deixar nossa cultura acabar”, expressou Tarana Parakanã.
Este artigo é um sonho concretizado por Tarana Parakanã em sua trajetória acadêmica e de professor. Ele acrescenta que vai buscar estudar muito mais para melhor entender, conhecer, interpretar e respeitar sua gente e o próximo. “ Minha comunidade me pediu para eu não parar de estudar. Eu sou o primeiro que vim de lá para estudar. Nós passamos 40 anos sem poder sair de lá, sem poder estudar. Fomos proibidos por uma empresa que trabalha com a gente. Sem estudos, a gente não pode fazer nada. E então, a gente não pode ficar de mãos cruzadas, esperando os outros e dependendo dos outros. Temos que estudar, encontrar uma saída e lutar por nossos direitos. Por isso, fico distante do meu povo para estudar e buscar o melhor”, assevera.
Povo Parakanã
O povo Parakanã habita tradicionalmente o território entre os rios Tocantins e Xingu, no sudeste do Pará. A cultura e modo de viver desta população foi abalada em meados da década de 70 pelas construções da rodovia Transamazônica e da Usina Hidrelétrica de Tucuruí.
IFPA e a Educação Escolar Indígena (EEI)
Pioneiro na oferta de cursos técnicos aos indígenas, o IFPA começou ofertando o curso técnico de Agroecologia para uma turma composta por oito povos indígenas – Amanayé, Assurini, Aikewara-Surui, Atikum, Guarani, Guajajara, Parkatejê e Akrãtikatejê. O curso ocorreu no Assentamento 26 de Março, às margens da BR 155, no município de Marabá. Com a visibilidade e os resultados da experiência, foi possível firmar outras parcerias e ampliar o debate em torno da Educação Escolar Indígena (EEI) no Estado.
O campus Rural de Marabá, para melhor atender às demandas educacionais indígenas da região, criou em seu organograma o Setor de EEI.
Os povos Parakanã e a parceria das prefeituras com o IFPA
A Terra Indígena Parakanã é composta por aproximadamente 1200 pessoas organizadas em 30 aldeias, e destas, 18 são atendidas pelo IFPA. A luta desse povo pela educação escolar indígena iniciou em 2017. Em 2018, começaram as visitas dos servidores do Instituto às aldeias para a construção do Projeto Pedagógico dos Cursos.
Com as Conferências Municipais de Educação realizadas pelos municípios de Itupiranga e Novo Repartimento, as Secretarias Municipais destes municípios conseguiram firmar parcerias com o IFPA campus Rural de Marabá afim de desenvolver as ações educacionais na perspectiva intercultural, dialogando com as pedagogias indígenas, os saberes e práticas tradicionais e valorizando as formas próprias de organização social existentes. A proposta firmada foi no sentido de garantir a eles o direito a uma educação de qualidade, com respeito e a valorização dos conhecimentos e saberes próprios.
Depois de vários estudos, o IFPA elaborou e aprovou o Plano de Trabalho Parakanã criado em 2019 e o mesmo viabilizou a oferta de três turmas – um curso Técnico de nível médio de Magistério (64 alunos) e outro de Agroecologia (42 alunos), todos de nível médio integrado profissionalizante –.
Em janeiro de 2020, foi feito o primeiro processo seletivo. Em março do mesmo ano, iniciaram as aulas. Os cursos estão sendo ofertados de forma concomitante, dentro da aldeia, num posto de apoio onde ocorre o Programa Parakanã. Atendendo ao sonho dos indígenas de ter a escola dentro do próprio território. Ao todo, foram 101 indígenas Parakanã aprovados no Processo, 33 para o Curso de Agroecologia e 68 para Magistério. As aulas iniciaram no dia 10 de março e ocorrem dentro da própria Terra Indígena, nos municípios de Novo Repartimento e Itupiranga, atendendo cerca de 15 aldeias
Este Processo Seletivo foi desenvolvido em duas etapas: análise do Histórico Escolar do Ensino Fundamental e, entrevistas coletivas na aldeia Maroxewara, localizada no município de Itupiranga, e no Centro de Formação denominado Taxaokowera. Na segunda fase, os candidatos apresentaram interesse em relação aos cursos e manifestaram o comprometimento com o processo de formação ao IFPA, aos caciques e lideranças indígenas, à Fundação Nacional dos povos Indígenas (Funai) e ao Programa Parakanã.
Com a pandemia, as aulas foram suspensas e em 2022 foram retomadas. Ao longo da pandemia, foram realizados visitas e acompanhamento destes alunos. Com a greve dos TAEs, em 2024, as aulas foram suspensas, retornando com o fim da greve. Devido a estes fatores, as primeiras turmas, inclusive a de Tarana Parakanã, deve se formar em 2026.